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A Origem do Termo “Cientista”

Pintura - Retrato do cientista Galileu Galilei com placa contendo o nome "Galileu Galilei" e o título de "filósofo natural/homem da ciência/cientista".

Aparentemente o termo cientista faz parte do dicionário há muitos séculos. Acontece que ele foi cunhado há menos de 200 anos. Surgiu durante o século XIX, quando tivemos inúmeros avanços científicos e a ciência já tinha uma quantidade considerável de classificações (física, geologia, química, biologia etc). Era hora de definir como aquele que pratica ciência deveria ser chamado.

Os primeiros filósofos naturais

Começamos essa história com os grandes sábios da Grécia Antiga, como Tales de Mileto (c. 625-545 a.C.), Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) e muitos outros, que assim como eles, fizeram importantes contribuições para a compreensão do que nos cerca.

Tales de Mileto, que também era matemático e astrônomo, provavelmente foi o primeiro filósofo a analisar e refletir sobre a natureza. Trabalhou na compreensão de qual elemento formava o mundo e os seres que nele vivem. Chegou à conclusão de que a água era a principal substância, por ser capaz de ter sua forma modificada e ser essencial à vida.

Tales foi capaz de deduzir que determinadas condições do tempo favoreciam uma boa colheita. Relatos afirmam que, sabendo disso, em determinado ano previu que as oliveiras produziriam mais. Comprou as moendas de azeitonas do local e quando chegou a época da colheita, alugou as máquinas, conseguindo um ótimo lucro.

Aristóteles estudou matemática, a natureza do movimento, a beleza dos céus… mas sua paixão era mesmo pelos seres vivos. O filósofo é, inclusive, considerado o pai da biologia.

Ele classificava espécimes de plantas e animais de acordo com a estrutura e o funcionamento. Seu sistema de classificação de seres vivos serviu de base para a taxonomia utilizada atualmente: a taxonomia de Lineu que classifica os organismos de acordo com Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero e Espécie.

Além de estudarem política, moral, ética e outros aspectos da vida humana, foram filósofos dedicados à busca pela verdade. Buscavam questionar a realidade, entender o mundo e o cosmos e explicar eventos aparentemente sobrenaturais fazendo uso da lógica e da inteligência.

Pensadores que seguiram esse caminho eram conhecidos como filósofos naturais.


Homens da ciência

A admiração pela ciência (do latim scientia, que significa conhecimento) prosseguiu com o passar dos séculos, ainda que tenha passado por períodos conturbados.

Devido à relação próxima que ciência e filosofia tinham desde a Grécia Antiga, Galileu Galilei (1564 – 1642) e Isaac Newton (1642 – 1727), por exemplo, também eram conhecidos como filósofos naturais.

Era comum serem chamados de homens da ciência ou simplesmente de acordo com a área de atuação (matemático, físico etc).

Foram notáveis cientistas, mas não eram chamados assim naquela época.

Cientista

A mudança só veio durante as primeiras décadas do século XIX, quando o inglês William Whewell (1794 – 1866) já era conhecido por sua habilidade de cunhar novos termos. Anodo, catodo e íon são alguns exemplos de termos científicos que vieram da mente de William.

Entre a lista de interesses de Whewell estavam arquitetura, astronomia, economia política, filosofia, mecânica e mineralogia. Foi professor de mineralogia e de filosofia no Trinity College e em 1831 foi um dos fundadores da Associação Britânica para o Avanço da Ciência (British Association for the Advancement of Science – BAAS).

No ano de 1833, em uma reunião promovida em Cambridge pela BAAS, Whewell foi o orador diante de uma platéia de mais de oitocentos expectadores. Apresentou assuntos relacionados à ciência, falando da importância da astronomia, dos fatos e teorias, entre outros. Ao final da apresentação, um homem da platéia levantou. Era Samuel Taylor Coleridge (1772 – 1834), um poeta romântico.  Coleridge fez uma provocação dizendo que os membros daquela associação não deveriam ser chamados de filósofos naturais, afinal, eram indivíduos mais práticos e chamá-los de filósofos, além de ser abrangente demais, não parecia mais apropriado.

William Whewell concordou com S. T. Coleridge e chegou à conclusão que a melhor palavra para se referir a quem pratica ciência deveria ser análoga a artista (aquele(a) que pratica arte), nascendo assim o termo “cientista”.

“Cientista” levou algumas décadas até ser amplamente utilizado. Sua inclusão no Dicionário Oxford da Língua Inglesa ocorreu em 1834 e gradativamente foi fazendo parte do vocabulário das pessoas até se tornar tão difundido quanto é hoje.


Referências:

BYNUM, WILLIAM; Uma Breve História da Ciência, L&PM Editores, 2014
SNYDER, Laura; The Philosophical Breakfast Club, Broadway Books, 2011
William Whewell – Stanford Encyclopedia of Philosophy
Which came first – Science or Scientists? explained in ten seconds – Minute Physics